Um inferno a céu aberto em Cruzeiro do Sul

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Como na novela "Avenida Brasil", cidade também tem famílias, inclusive crianças que vivem do que conseguem tirar do lixão próximo ao bairro São José

Drama da vida: famílias precisam catar lixo para sobreviver e crianças ficam em situação de risco

Admirada por causa de suas belezas naturais e por uma geografia de relevos que a faz uma cidade única no mundo, Cruzeiro do Sul esconde um drama e um crime que a maioria da população local pensa existir apenas nos folhetins da televisão, como foi o caso da novela global "Avenida Brasil". Sem o charme e a beleza dos personagens "Jorginho" e Nina, vividos respectivamente pelos atores Cauá Raymond e Débora Falabela, a segunda maior cidade do Acre também tem o seu lixão e, claro, pessoas que se alimentam dos restos de comida ali jogados e que também tiram algum sustento disputando espaço com urubus, cachorros vadios e outros bichos como ratos e baratas.

Um cenário real com muito mais dramaticidade que a novela da TV e com o agravante de que a situação acontece graças à incompetência do poder público, no caso a Prefeitura Municipal administrada pelo prefeito reeleito Wagner Sales, do PMDB. A ilegalidade vem sendo investigada pelo Ministério Público Estadual (MPE), através da Promotoria do Meio Ambiente. "Todas as normas foram e continuam sendo desobedecidas ali", aponta o promotor de meio ambiente de Cruzeiro do Sul, Leonardo Honorato Santos.

Este cenário de miséria, com seu mau cheiro e características bem próximas do que relatou Dante Aligheri em O Inferno, o capítulo que compõe a parte principal do livro Divina Comédia, está localizado praticamente dentro da cidade, ironicamente na estrada que leva a um bairro com nome de santo, o São José. De sagrado, ali não tem nada. É no final do bairro conhecido por "Bate", uma estrada estreita e empoeirada. Às suas margens, além dos detritos caídos de veículos poluidores, há várias propriedades rurais, a maioria com suas casas abandonadas. Consta que a razão da fuga dos moradores é o barulho feito pelo frenético movimento de caminhões carregando lixo e, claro, pelo mau cheiro e sujeira deixados por eles.

Numa dessas casas, há cerca 300 metros do local onde o lixo é depositado, numa propriedade suja e sombria cujo cenário parece ter saído de um dos contos macabros do escritor norte-americano Edgar Allan Poe, quem consegue cruzar aquele umbral e chega à residência é "recepcionado" por cães, uma grande matilha, de todos os tamanhos, todos com cara de fome mas também capazes de amedrontar. Quem conhece as histórias mitológicas da Grécia antiga, não deixa de comparar: para tomar conta daquele local, só mesmo os cães cerberus que, reza a mitologia grega, tomam conta dos portões do inferno.

É neste local que vive, por exemplo, gente como dona Maria das Dores, que fala pouco e não se mostra disposta a fornecer maiores detalhes de sua vida, nem mesmo o sobrenome. Mas, para quem é personagem do drama de viver entre o lixo, ela não poderia ter mesmo outro nome ou sobrenome. Maria das Dores é, por assim dizer, a dona dos cachorros famintos que compõem aquele cenário de horror. Dona Maria das Dores diz que os cachorros, seus companheiros de infortúnio, foram abandonados por seus antigos donos, indo ao lixão em busca de comida e sobrevivência, e acabaram sendo "adotados" por ela e seu marido, conhecido por Seu "Buriti".

Entramos neste inferno real numa manha de sexta-feira, por volta das 10 horas. O carro da reportagem pára e, com a freada brusca, dezenas de urubus se assustam e partem em revoada para as árvores próximas, além das estacas do que um dia foi uma cerca e ainda as ruínas de um prédio onde deveria funcionar a administração do que deveria ser um aterro sanitário e não um lixão a céu aberto. Alguns insistem em voar bem alto e, apesar da miséria do local, acabam por criarem uma bela imagem do céu de uma cidade ironicamente chamada Cruzeiro do Sul. Mas, aos poucos, alguns vão descendo. O desejo por comida vence o medo e, aos poucos, voltam à sangrenta disputa por carcaças de animais putrefatos. Outros ficam à espreita de qualquer ser que não se mexa mais.

Crimes ambientais começaram com Zila Bezerra e continuam com Vagner Sales, diz promotor

Promotor do Meio Ambiente, Leonardo Honorato Santos

Apesar da instalação muito próxima da cidade, o local do lixão foi projetado para ser um aterro sanitário controlado. A construção começou na administração da prefeita Zila Bezerra (2005 a 2008) e nunca foi concluída, nem por ela e muito menos pelo prefeito que a sucedeu. Restaram apenas as ruínas dos prédios e uma balança que seria para controlar o peso dos caminhões.

Por afrontar o Código Florestal e a Lei dos Resíduos Sólidos, a construção não teve o licenciamento ambiental liberado e a clandestinidade vigora todos esses anos. De acordo com o promotor Leonardo Honorato Santos, a ex-prefeita e o atual podem ser condenados por improbidade administrativa. Pode sobrar também para outros prefeitos da região. “Os prefeitos das cidades interligadas por estradas tentaram fazer um aterro em consócio, mas a ideia for abortada por inviabilidade econômica”, acrescentou o promotor.

Avó completa renda da família com cobre tirado do lixo

Mulher, que veio do seringal  com netos,  abriga-senuma cabana feita de papelão e plástico no lixão

Mais adiante, como que pisando em solo instável e desviando-se de objetos cortantes e perfurantes, em meio a ratos, baratas, moscas e enfrentando um odor absurdo sem nenhum tipo de proteção nas narinas, uma senhora, aparentando uns 60 anos, mas seguramente mais nova, completa aquele cenário horroroso. Ela está acompanhada de três crianças, com idade aparente entre oito a 12 anos. Ninguém quer conversa com jornalistas. Os meninos hostilizam os repórteres, enquanto a mulher, avó das crianças, tenta esconder o rosto atrás de uma árvore. Não é hostilidade. Apesar da miséria que obriga aquela família a recorrer ao lixo para sobreviver, ainda há alguma dignidade naquela gente. Identificá-la com nome e sobrenome, é algo que aquela família de catadores de lixo não quer e com o que o repórter concorda. Sob o compromisso de não identificar nem a mulher nem as crianças, o repórter propõe um diálogo. Um dos meninos dá a senha: “fala, vó!”. Difícil não lembrar, neste momento, o poeta Manoel Bandeira, quando o acadêmico descreve uma cena análoga àquela com o célebre O Bicho.

Menores procuram por alimentos no lixão

Ao obter a garantia de que teria sua identidade preservada, a senhora resolve falar. Enquanto descascava fios para obter uma pequena quantidade de cobre, sempre de cabeça baixa, ela resolveu contar um pouco da sua história. Viúva, mora com os três netos em um casebre nas proximidades do lixão. Não tem idade suficiente para se aposentar pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). No entanto, ganha uma pequena quantia do programa Bolsa Família, do Governo Federal. Os quatros, ela e as crianças, viviam num seringal às margens do rio Juruá Mirim e tiveram que migrar para a cidade, à procura de dias melhores, e principalmente para colocar as crianças na escola.

Questionada sobre os motivos de os netos estarem ali, a mulher não titubeia: “não tenho com quem e nem onde deixá-los. O pai os abandonou e mãe deles mora numa fazenda, trabalhando como cozinheira. À tarde, eles vão para a escola, porque se não forem, a gente perde o bolsa família”, declarou ela, dizendo que tem vontade de aprender a ler. “Sei mal assinar o nome”, completou.

Aquela avó e mãe disse que tem alguns sonhos, a começar com a aposentadoria de um salário mínimo e também de ser contemplada com uma casa do programa habitacional do governo estadual e, finalmente, trazer a filha para a cidade para unir a família de novo.

Chorume ameaça lençol freático

Caminhão derrama lixo. Depois das chuvas a água escorre para os leitos contaminando os igarapés da região 

Enquanto os órgãos de controle ambiental não exercem o poder de polícia administrativa, o lixão coloca em risco a saúde da população. Em uma área onde o lençol freático é muito próximo da superfície do solo, o aquífero (reserva de águas subterrâneas) pode estar comprometido, uma vez que o chorume (líquido escuro que sai do lixo), não tem tratamento prévio, aponta o promotor.

O mesmo material poluente também escorre para um córrego, que deságua no Igarapé Sacado e este desemboca no Rio Juruá, afetando as populações ribeirinhas. Pesquisas ainda não concluídas do Ministério da Saúde apontam uma alta incidência de doenças como diarreia e coceiras na região. Agravando mais a situação, caminhões que limpam fossas sépticas despejam o material, in natura, sem nenhuma medida de segurança.    

Secretaria anuncia possível solução

Técnicos da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, procurados pela reportagem, anunciaram que pretendem fazer algumas intervenções na área. De acordo com a secretária Maria Francisca do Nascimento, uma equipe técnica está procurando outra área a fim de desativar o lixão. Disse ainda que, em parceria com o Instituto de Meio Ambiente do Acre (IMAC) e a Secretaria Estadual de Meio Ambiente (Sema), pretende implantar uma política integrada de saneamento básico, em consonância com a legislação estadual e Lei de Resíduos Sólidos.

Ainda segundo a secretária, o Município faria a coleta seletiva e daria a destinação adequada, reciclando e reaproveitando o lixo, e, dessa forma, reduzindo o déficit socioambiental, “Estamos fazendo um estudo-diagnóstico para realizar uma audiência pública. Nela, técnicos e a sociedade civil vão debater e analisar o levantamento”, garantiu. Após essas etapas, que incluem a implantação de um aterro sanitário controlado e “muita educação ambiental”, será criado, de acordo com Maria Francisca, um plano municipal de resíduos sólidos e, consequentemente, uma lei municipal para garantir a sua aplicação. Mas até que isso aconteça, este drama da vida real continuará a imitar a arte?

Jorge Natal - Fotos Chico Rocha 

 

 

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Cidade da Justiça entra em funcionamento

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Mesmo sem funcionando na sua totalidade, a Cidade da Justiça já tem um novo endereço. Localiza-se, agora, na BR-307, Km 09, Bairro Boca da Alemanha, nas antigas instalações do Instituto de Educação e Ciências e Tecnologia do Vale do Juruá (Ieval). O local passou por reforma, ampliação e readequação no valor de R$ 1,6 milhão. A obra é uma construção conjunta do Judiciário e Executivo Estadual.

A parceria se deu da seguinte forma: o governo estadual adquiriu e destinou o imóvel para a implantação concentrada dos serviços judiciários da comarca, e o Tribunal de Justiça repassou quatro imóveis (dos quais dois estão situados em Rio Branco e dois em Cruzeiro do Sul) ao Executivo Estadual.

Da mesma forma que aconteceu em Rio Branco, o objetivo primordial é a reunião em um só local de todos os serviços judiciários da comarca, o que garantirá economia de recursos com logística administrativa e pagamento de aluguéis, bem como vai assegurar maior acessibilidade e comodidade aos magistrados, servidores e cidadãos que buscam a Justiça. Já foi assegurado que haverá transporte coletivo ao preço de R$ 2,00.

A Justiça Federal e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) firmaram parceria para compartilhamento do espaço físico da Cidade da Justiça. “Estamos sempre abertos a esse tipo de parceria que promova um fortalecimento de nossas instituições em nosso Estado e que permita aos cidadãos um maior acesso à Justiça”, ressaltou o juiz Titular da 2ª Vara Cível da Comarca de Cruzeiro do Sul, Clóvis Lodi.

 

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Presidente da Aleac garante apoio á jornalistas para jogo em Cruzeiro do Sul

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A Comissao de Esportes do Sindicato dos Jornalistas do Acre esteve reunida na manha desta terça feira (27/11) com o presidente da Assembléia Legislativa do Acre, deputado Elson Santiago (PEN). No encontro, os jornalistas foram em busca de apoio para o jogo amistoso e beneficente no dia 8 de dezembro, no estádio O Cruzeirao,em Cruzeiro do Sul.

Amante do futebol, Elson Santiago, que foi convidado para o jogo, garantiu o transporte da equipe dos jornalistas até Cruzeiro do Sul e se mostrou satisfeito pelo convite.
"Será uma grande oportunidade de confraternizar de uma só vez os jornalistas e os ex-craques do futebol de Cruzeiro do Sul. O Poder Legislativo vai participar diretamente dessa festa garantindo o transporte da equipe", disse o presidente.
 
O presidente da Comisaso de Esportes do Sinjac, Rutemberg Crispim, agradeceu o apoio e confirmou o jogo no Juruá/
 
"Nossa idéia é formar essa equipe para realizar jogos pelo estado. Temos no futebol uma grande oportunidade de percorrer as cidades do Acre e nos confraternizar como nossos colegas. Queremos agradecer á Aleac e aos demais parceiros que nos prestigiam nessa investida", disse Crispim.
 
Goleiro do Atlético e jogo beneficente
 
Para o amistoso em Cruzeiro do Sul, uma presença ilustre está confirmada: a goleiro Weverton, do Atlético Paranaense, que no último sábado conseguiu o acesso para a série A. Weverton confirmou a ida ao Juruá onde vai atuar um tempo por cada time. O jogador vai sortear uma camisa oficial depois da partida. Para concorrer á camisa do goleiro, basta o torcedor levar um kg de alimento nao perecível. Os donativos serao entregues á APADEQ, em Cruzeiro do Sul.
 
Jairo Barbosa -  O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

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Educandário Eunice Weaver comemora 60 anos em Cruzeiro do Sul

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O Educandário de Cruzeiro do Sul foi fundado em 19 de novembro de 1952 pela Sociedade Eunice Weaver e funcionou durante muito tempo como abrigo para atender os filhos dos hansenianos e crianças abandonadas. Apesar de ser coordenado pelas irmãs da Congregação Franciscana ele não pertence à Diocese  de Cruzeiro do Sul.

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