Homenagem ao guardião da Floresta
Alguns leitores ainda não o conhecem. Ele é um dos responsáveis pela criação e efetivação da primeira Reserva Extrativista do Brasil, a do Alto Juruá. É respeitado por autoridades nacionais e internacionais e um dos ícones do movimento pela preservação dos recursos naturais na Amazônia. Condecorado com inúmeras medalhas, comendas, entre outras honrarias, Seu Antonio Francisco de Paula, que já foi entrevistado pelo Programa do Jô, completou no dia 02 janeiro 85 primaveras.
Nascido no município cearense de Nova Russas, ele aportou na região em 1950. “Vim de navio até Manaus, fiquei alguns dias em Eirunepé (AM), depois peguei um “gaiola” (barco de menor porte) até a cidade de Tarauacá, onde fique ‘um verão’ trabalhando no Seringal Alagoas”, conta, justificando a pequena estada pelo fato ter contraído uma das doenças mais graves da época, o “impaludismo” (malária).
Debilitado, o então jovem seringueiro foi trabalhar como funcionário do Seringal Bagé, no Rio Tejo, e, três anos depois, casou-se na vila Marechal Thaumaturgo. Se o termo arigó foi dado a quem não exerce função intelectual, e sim a trabalhadores braçais, como era o caso daqueles milhares de seringueiros espalhados para estes rincões, o mesmo não se pode dizer de Seu Antonio. Com domínio dos números e boa grafia, logo chegou à função de guarda-livro (contador) no escritório do barracão.
O contato direto com a floresta já havia “encantado” o nosso herói. Mesmo com essas habilidades pouco comuns à época, largou o promissor emprego e “cortou seringa” por mais de uma década no Rio Bagé, mas, em 1967, voltou a um novo barracão desta feita como gerente. “Trabalhei 12 anos nos Rios Paraná dos Mouras, Juruá, Azul e Môa. Um dos patrões foi o senhor Manoel Benvindo Pinheiro, um homem bom”, recorda ele.
Década de70 e os empates
A progressiva desativação dos seringais, ocasionada por série de fatores políticos, econômicos e socais levou os governos estadual e federal a criar uma alternativa que pudesse substituir a economia extrativista. “Um inverno que não tem geada e um verão que não tem seca. Assim as terras acreanas eram oferecidas no centro-sul do país”, destaca seu Antonio. Compradas pelo valor de uma palma de banana, os ‘paulistas’, apelido dado pela população nativa aos novos “donos do Acre”, trataram de expulsar seringueiros, índios e ribeirinhos para formação de pastos e a consequente criação de gado.
Seu Antonio de Paula, que estava radicado no Alto Juruá, a exemplo de Wilson Pinheiro, Hivair Higino, Raimundo Trovoada e Chico Mendes, fez parte da resistência. “Como diz o Hino Acreano, se o audaz estrangeiro algum dia nossos brios de novo ofender, lutaremos como a mesma energia, sem recuar, sem cair, sem temer. A gente não tinha ainda ideias de preservação. Queríamos apenas manter a floresta em pé porque era dela que gente tirava o sustento das nossas famílias”, esclarece o velho guardião da floresta.
As resistências, muitas vezes armadas, ficaram conhecidas como empates. Naquela época, o então metalúrgico e líder sindical Luiz Inácio Lula da Silva foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional. A acusação foi incitação à violência. Logo após o assassinato do presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais Brasiléia, Wilson Pinheiro, em um ato público no centro da cidade, ele preferiu a emblemática frase: “Tá na hora da onça beber água”.
Reserva Extrativista do Alto Juruá
Reserva Extrativista (Resex) é uma área utilizada por populações tradicionais, cuja sobrevivência se baseia no extrativismo e, complementarmente, na agricultura de subsistência e na criação de animais de pequeno porte. Tem como objetivos básicos proteger os meios da vida e a cultura dessas populações, além de assegurar o uso sustentável dos recursos naturais da unidade.
No dia 23 de janeiro de 1990, em parceria com a Associção de Seringueiros e Pequenos Agriucultores da Alto Juruá (Asareaj) e Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS), um decreto presidencial criou a Reserva Extrativista do Alto Juruá. O sertanista Antonio Macêdo, o professor da Universidade de Campinas (Unicamp), Mauro Almeida, e só seringueiros Antonio de Paula e Chico Ginú estavam à frente do movimento.
“Estudei até o terceiro ano de antigamente. Aprendi mais com a escola da vida, da qual ainda sou aluno. Quero dizer às futuras gerações: cuidem das florestas, dos rios, igarapés e lagos, da fauna, ou seja, de todos os recursos naturais. Este é o legado que a nossa geração deixa para um dos locais mais bonitos do mundo, que a nossa região”, apregoou o sábio, guardião, ativista e mestre da floresta.
www.vozdonorte.com.br - Jorge Natal
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