Entrevista: Dr. Oscar Paredes Pando, arqueólogo da Universidad San Antônio Abad, em Cusco, Peru e principal palestrante do II Seminário de Comunicação Social do Juruá

Dr. Oscar

“ Uma universidade pública democrática tem que compartilhar o conhecimento com a população, pois melhor capacitada tomará melhores decisões, escolherá melhor seus governantes, lutará contra a corrupção, além de cumprir com suas obrigações. Esta é a minha luta cotidiana” Dr. Oscar Paredes Pando.  

O professor Doutor Oscar Paredes Pando, antropólogo e diretor da Universidad San Antônio Abad, em Cusco, Peru, principal palestrante da II Semana de Comunicação Social do Juruá, realizada no Teatro do Môa, no Campus Floresta, da Universidade Federal do Acre (Ufac) destacou em sua palestra que a universidade pública democrática tem que compartilhar o conhecimento com a população.

Formado pela Universidad San Antônio Abad, de Cusco/Peru, o Dr. Oscar Paredes Pando fez Mestrado em Ciências Políticas pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Estudos de Integração Latino Americana na Universidade Nacional de Brasília (UNB) e trabalhou muitos anos em planejamento. Depois como professor universitário publicou alguns livros e atualmente é diretor de uma faculdade que tem 1.500 alunos e 90 professores.

Paredes destaca que trabalha para projetar sua faculdade quando troca informações com outras universidade como a UFAC e a palestra aos acadêmicos do curso de Jornalismo do Campus Floresta é apenas a continuidade de outras feitas à acadêmicos da UFAC, em Rio Branco, num intercâmbio iniciado a mais de 30 anos pelo professor Dr. Jacó Picolli com quem tem uma amizade de mais de 30 anos com a realização de diversos cursos e palestras.

“ Uma palestra de Comunicação Social é uma coisa muito importante porque pode despertar a opinião pública que quando tem força causa efeito nas decisões políticas e quando se toma decisões políticas se pode garantir troca estrutural que beneficia a sociedade.

Veja a entrevista concedida pelo Dr. Oscar Paredes ao editor do Jornal Voz do Norte.

Na sua visão qual a importância da construção de uma estrada ou ferrovia ligando Pucalpa Cruzeiro do Sul?

Dr. Oscar Paredes Pando – A construção de uma estrada ou ferrovia entre Pucalpa e Cruzeiro do Sul seria uma das ações mais importantes para a integração da América do Sul se avaliarmos que teríamos acesso a Manaus, que tem uma zona franca industrial que precisa de acesso aos grandes mercados do pacífico, através dos portos peruanos.

Voz do Norte – No lado peruano será construída uma carretera – estrada – cujo projeto já está pronto. Do lado brasileiro o governo anuncia a construção de uma ferrovia. Qual a melhor maneira de garantir essa integração?

Dr. Oscar Paredes Pando - A construção da estrada para integrar o Brasil e o Peru, pela fronteira de Assis Brasil, demorou mais de 30 anos. A construção de uma ferrovia, com certeza, causa menos impactos e permite melhores cuidados ambientais porque a floresta amazônica tem diferentes ecossistemas com concentração de muitas águas e imensas riquezas biológicas. O melhor exemplo de que a ferrovia causa menos impacto ambiental está no Pantanal. Se tivesse sido construída uma estrada muitos eco sistemas do Pantanal poderiam ter desaparecido. A possibilidade de uma ferrovia entre Pucalpa e Cruzeiro do Sul é uma ideia muito salutar, mas tem que ser construída principalmente pensando no transporte da população, de materiais para o desenvolvimento da educação e da saúde e não apenas das mercadorias.

Voz do Norte - A integração Peru/Brasil já é uma realidade pela fronteira do Alto Acre ?

Dr. Oscar Paredes Pando - A construção de uma ferrovia entre Pucalpa e Cruzeiro do Sul seria complementar a estrada construída de Rio Branco até os portos do Pacífico. De Pucalpa até os portos já existem boas estradas, então, o pensamento da construção desta ferrovia teria que ser formulado na concepção de que um povo precisa do outro. Esse é o pensamento das universidades que estão sempre pesquisando e formando profissionais para garantir um melhor desenvolvimento através da troca de conhecimentos e aproveitar as vantagens e as melhoras. As autoridades precisam sempre utilizar as universidades de Peru, Bolívia e Brasil neste processo. O professor Jacó Picolli, por exemplo, esteve várias vezes em Cusco como pesquisador e como palestrante da situação das populações indígenas brasileiros, mas também participou como aluno de um curso internacional de Carbono 14 ministrado por um importante professor da Polônia com novas metodologias para as pesquisas.

Voz do Norte – Qual sua visão sobre o município de Cruzeiro do Sul, que está muito próximo de Pucalpa ?

Dr. Oscar Paredes Pando - Cruzeiro do Sul é uma das cidades mais importantes do Oeste do Brasil pela sua posição estratégica. Com essa palestra buscamos um conhecimento maior para o povo brasileiro e peruano porque se tivermos o conhecimento difundido podemos amadurecer melhor a ideia de uma cooperação mútua maior e uma interdependência porque somos povos vizinhos. Como antropólogo penso que a região do Javari, Juruá, Purus e Acre sempre é uma grande área cultural pela população indígena que durante milênios alcançou grande índice de desenvolvimento utilizando os recursos hídricos, conhecimento da floresta e tiveram um grande desenvolvimento humano que hoje chamamos de sustentável. Nos próximos 20 anos as possibilidades de desenvolvimento de Cruzeiro do Sul são muito maiores que as de Rio Branco, caso se concretize a construção da estrada e ferrovia para Pucalpa. Precisamos nos organizar. Numa visita aos arredores da cidade com o professor Jacó fiquei satisfeito porque percebi que Cruzeiro do Sul já está se preparando e se organizando para esta nova fase quando cuida do meio ambiente, das florestas e dos rios.

Voz do Norte – O propagado desenvolvimento sustentável, então, pode se tornar uma realidade?

Dr. Oscar Paredes Pando - Penso que é um neologismo o desenvolvimento sustentável alcançado há milhares de anos pelos indígenas. Entendemos que há muitas possibilidades de chegar adiante com muitos proveitos de cooperação e interdependência. Pensamos de forma diferente do que pensam os grandes governantes e também o mercado. Os governantes do Peru e do Brasil e os empresários pensam que desde 1856 quando aconteceu o primeiro convênio de comércio e de navegação ficou tudo pronto, mas não é assim, porque o mercado pensa que as possibilidades de cooperação e integração dependem apenas das vantagens comerciais. Para nós o ator fundamental para a integração é a sociedade, porque as sociedades conhecem a vida cotidiana, superam as dificuldades de forma unida e conjunta. Este é o conceito que estamos desenvolvendo nas pesquisas para entender o conceito de cultura de fronteira das populações das fronteiras, um conceito tradicional de pátria que precisa ser reformulado.

Voz do Norte – Explique como funciona esse conceito?

Dr. Oscar Paredes Pando - Esse conceito que estamos desenvolvendo vai significar anos depois a modificação das propostas de grandes esquemas de integração que não levam em consideração os pequenos povos vizinhos de Inapari e Assis Brasil, por exemplo, pois apesar dos inúmeros convênios firmados entre o Brasil e o Peru muito pouco ou quase nada são implementados. A razão destes tratados não se efetivarem está na condição de serem assinados pelos governos de costas para o povo. Queremos, então, mudar esse conceito envolvendo as universidades, que são entidades públicas com a obrigação de levar o conhecimento, a capacitação e formação ao povo, usando os recursos públicos e devolvendo a ele o conhecimento para seu melhor desenvolvimento.

Voz do Norte – Apesar da sua esperança em melhorias com essa integração, restam algumas preocupações ?

Dr. Oscar Paredes Pando - Uma coisa que muito me preocupa é a situação das populações indígenas da região e a universidade tem que trabalhar junto com eles, que são os verdadeiros donos destas terras, pois quando o homem branco chegou eles aqui já estavam, conhecem muito melhor a região e estão por aqui há mais de três, quatro mil anos, ou mais talvez. A importância do diálogo com as populações indígenas pode garantir muitos conhecimentos e possibilidades de desenvolvimento para nossa sociedade. O diálogo com pesquisadores e universitários pode garantir melhor crescimento econômico, da educação, distribuição de renda, sem perder a identidade dos povos indígenas.

Voz do Norte – A centenária Universidade San Antônio Abad detém muitos conhecimentos da cultura Inca que foi um povo muito desenvolvido

Dr. Oscar Paredes Pando - A cultura Inca é uma síntese de 20 mil anos de cultura nos Andes com o desenvolvimento de muitas tecnologias na educação, agricultura, arquitetura e construções anti sísmicas. Para se ter uma ideia em 1950 ocorreu um grande sismo em Cusco e toda a cidade desapareceu, mas as construções e muralhas dos Incas permaneceram intactas. Existem fotografias para comprovar esses fatos. Quando os espanhóis chegaram em Cusco encontraram uma grande sociedade organizada, com alto conhecimento tecnológico, científico e para ganhar aqueles conhecimentos criaram a primeira universidade, em 1650, no estilo europeu para formar sacerdotes e trocar as informações.

Voz do Norte – Qual a importância desse intercâmbio entre as universidades brasileiras e peruanas ?

Dr. Oscar Paredes Pando - A UFAC, por exemplo, organiza seminários como este para trocar informações com professores e estudantes dos países vizinhos. Sou muito grato pelo convite feito pelo professor Jacó Picolli, pessoa que compartilhamos muitos pensamentos comuns sobre as questões das fronteiras, dos povos indígenas e do compromisso da universidade em orientar, formar e participar do desenvolvimento do conhecimento. Atividades como estas são de grande importância para a garantia de um intercâmbio cultural entre os dois países vizinhos. Uma universidade pública democrática tem que compartilhar o conhecimento com a população, pois melhor capacitada tomará melhores decisões, escolherá melhor as autoridades e seus governantes, lutará contra a corrupção, além de cumprir com suas obrigações. Esta é a minha luta cotidiana.

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