O alfabeto fatal das Hepatites

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Talvez a maioria das pessoas não saiba, mas as hepatites virais representam um dos mais graves problemas de saúde pública na Amazônia Ocidental brasileira, onde além de aumentar os custos operacionais do Sistema Único de Saúde (SUS), a doença em suas variações é responsável por um perigoso indicador de mortalidade em toda a Região Norte do Brasil.

No Estado do Acre casos de hepatites são comuns, sobretudo com distribuição para o interior, onde destacamos a Região do Vale do Juruá, cujos municípios enfrentam preocupantes indicadores da doença.

As hepatites virais são classificadas em ordem alfabética pelos tipos A, B, C, D e E. Onde esta sopa de letras sugestivamente parece deixar a população confusa em relação à diferença entre os tipos de infecção.

Segundo o Professor Marcelo Siqueira da Universidade Federal do Acre e pesquisador do assunto na região estes tipos de hepatites são provocadas por uma infecção viral, cujos vírus são classificados de A a E. As hepatites A e E têm suas cadeias de transmissão influenciadas pelo saneamento básico, já que são transmitidas por via fecal-oral, ou seja, o indivíduo infectado dissemina a doença através das fezes que pela falta de saneamento básico ou comportamento inadequado vão parar nos rios, igarapés e cacimbas, contaminando a água e consequentemente alimentos que ao serem ingeridos por terceiros acabam propagando a infecção.

 

O professor destaca que o tratamento destes tipos de hepatites tem seu foco no controle dos sintomas e suas consequências vão depender do estado geral de saúde dos indivíduos. “ A hepatite A hoje apresenta índices assustadores em nossa região, destacando as poucas reportagens e procedimentos preventivos por parte dos gestores públicos sobre o tema.”, disse.

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Entretanto, apesar dos altos indicadores de hepatite A na região, as hepatites B, C e D também tem prevalência elevada e que podem resultar nas formas mais graves da doença hepática. Em 2011 o programa Fantástico da Rede Globo estreou um quadro apresentado pelo famoso médico Drauzio Varella com o título “Hepatites: epidemia ignorada.

Durante as gravações Dr. Drauzio e sua equipe desembarcaram em Cruzeiro do Sul para retratar os perigos e as consequências das hepatites nesta região do país, destacando como modelo exemplar o trabalho da médica infectologista Profa. Dra. Suiane Negreiros, responsável pelo acompanhamento e tratamento de centenas de pacientes na Região do Alto Juruá.

Para Siqueira as infecções pelos vírus B, C e D se dão pelo que se chama de contato com fluidos corpóreos, onde para ser mais claro, pode citar o sangue e o sêmen, o que faz destes tipos de hepatites infecções consideradas sexualmente transmissíveis, além das outras formas é claro.

“ Entretanto, além da via sexual aspectos econômicos, sociais e culturais parecem contribuir com a proliferação da doença em nossa região, onde hábitos de compartilhar escovas de dente, lâminas de barbear e utensílios usados para fazer as unhas, podem representar uma importante cadeia de transmissão quando não são tomadas as devidas providência”, afirmou.

 

Siqueira lembrou ainda que no último caso, muitos salões de beleza de maneira responsável já dispõem de estufas ou autoclaves, equipamentos que eliminam os vírus dos utensílios por meio de calor seco ou úmido (recomendável), garantindo a segurança dos clientes. Essa preocupação é válida, pois as hepatites B, C e D tem tratamento demorado, com muitos efeitos colaterais, por vezes intoleráveis pelos pacientes.

 

“ A doença evoluindo para a forma crônica se estabelece por anos, apresentando resultados que vão desde a cura, quando realizado tratamento oportuno e adequado, até a cirrose hepática (cicatrização e perda da função do fígado) e o carcinoma hepatocelular, um tipo de Câncer hepático, resultantes quase sempre fatais”, ressaltou.

 

Estima-se que cerca de três milhões de brasileiros podem estar infectados com algum vírus hepático e segundo o Ministério da Saúde (MS) apenas cerca de 150 mil tem o diagnóstico, fato que faz das hepatites um problema de saúde pública que vai além da doença propriamente dita, pois envolve o comportamento da população frente a possibilidade de infecção, bem como frente a gestores públicos que negligenciam ações que poderiam evitar a proliferação dos casos.

 

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