Antônio de Paula: última entrevista do líder seringueiro mostra sua preocupação com o meio ambiente e a poluição das águas de rios e igarapés
Antônio de Paula no recente Seminário da Prefeitura para a implantação do Plano de Gerenciamento Integrado de Resíduos Sólidos do município

Antônio de Paula: última entrevista do líder seringueiro mostra sua preocupação com o meio ambiente e a poluição das águas de rios e igarapés

Antônio de Paula no recente Seminário da Prefeitura para a implantação do Plano de Gerenciamento Integrado de Resíduos Sólidos do município

Antônio de Paula no recente Seminário da Prefeitura para a implantação do Plano de Gerenciamento Integrado de Resíduos Sólidos do município

Elson Costa

Uma conversa com o líder seringueiro Antônio de Paula – antes de sua morte na semana passada – quando ele participava no mês de Maio do primeiro seminário realizado pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente da Prefeitura de Cruzeiro do Sul para a implantação do Plano de Gerenciamento Integrado de Resíduos Sólidos (PGIRS) do município, projeto executado sob a responsabilidade da empresa Liberdade Ambiental em conjunto com setores da sociedade organizada, mostra a permanente preocupação do ambientalista com o meio ambiente.

Antônio de Paula estava sempre presente nos eventos da cidade, principalmente quando o debate era o meio ambiente.

Fundador da Organização Não Governamental Amigos das Águas do Rio Juruá (AMAJ) entidade criada por um grupo de pessoas preocupadas com a poluição do rio causada pela falta de orientação das comunidades ribeirinhas e também da zona urbana dos municípios localizados as suas margens. Na avaliação dele, ao longo do tempo a população tem transformado o rio num grande lixeiro e jogado em seu leito todo tipo de dejeto, inclusive animais mortos. Na ocasião ele parabenizou a decisão da prefeitura de elaborar o PGIRS para implantação de um aterro sanitário.

Antônio de Paula entendia que a falta de um aterro sanitário nos municípios da região, que recolhem diariamente centenas de toneladas de lixo, é um grave problema para o meio ambiente, principalmente por motivo da poluição das águas de igarapés e córregos localizados nas proximidades dos lixões que são contaminados pelos resíduos líquidos chamados de chorume, que tem substâncias químicas resultantes da decomposição da matéria orgânica, metais pesados e substâncias nocivas que se infiltram no solo, além de escorrer para os igarapés. Ele entendia muito do assunto.

Falando com propriedade e conhecimento Antônio de Paula mostrava sua preocupação, principalmente com a poluição do lençol freático (reservatório de água subterrânea proveniente da água da chuva infiltrada no solo), como explicou e também dos córregos e rios causando um dano sério ao meio ambiente e consequentemente a saúde das pessoas que utilizassem a água contaminada para beber, lavar roupa e alguma outra necessidade do dia a dia, situação muito normal para as comunidades que moram nas margens desses igarapés.

“Geralmente a gente não vê nas pessoas o menor interesse para cuidar do meio ambiente. Atualmente minha tese tem sido voltada para o caso da poluição das águas porque há um descaso muito grande. Viajei muito como seringueiro, presidente de associação e liderança nos Rios Tejo, Môa e Juruá e não via as pessoas se importarem com a água do rio. Os próprios ribeirinhos na canoa abriam uma lata de conserva e ao invés de guardar dentro de um saco jogavam a lata dentro do rio, o mesmo acontecendo com as garrafas de cachaça”, lamentou.

O líder seringueiro com a esposa e colaboradores na Reserva Extrativista do Alto Juruá

O líder seringueiro com a esposa e colaboradores na Reserva Extrativista do Alto Juruá

Antônio de Paula, apesar de demonstrar tristeza com a situação, era um grande entusiasta da luta de conscientização das comunidades ribeirinhas e também da zona urbana para os cuidados com o meio ambiente em geral e principalmente das águas do Rio Juruá, igarapés e córregos da região. Em parceria com a Secretaria Estadual de Meio Ambiente (Sema) ele realizou um projeto de conscientização, através de palestras, nos municípios do Porto Walter e Marechal Thaumaturgo, Alto Juruá e se mostrou muito satisfeito com os resultados.

“Teve ocasião que o Rio Juruá no verão ficava com a água limpa e a gente bebia daquela água nas viagens. Mas, numa delas paramos numa praia, bebemos água e quando subimos um pouco mais encontramos restos de três bois mortos jogados dentro do rio. Esse é um problema real e precisa que as autoridades façam um trabalho de conscientização dos ribeirinhos, que em minha opinião deve começar pelas escolas, para que o povo passe a cuidar melhor desse bem precioso que é a nossa água de rios e igarapés”, afirmou o ambientalista.

Antônio de Paula realizou um trabalho de grande destaque na Reserva Extrativista do Alto Juruá

Antônio de Paula realizou um trabalho de grande destaque na Reserva Extrativista do Alto Juruá

A seriedade com que encarava seu trabalho despertava o interesse de órgãos públicos como o Ministério Público Estadual (MPE), que sempre era acionado e em muitas situações foi seu grande parceiro em muitas atividades, como por exemplo, na ocasião em que foi denunciado o problema do Igarapé Canela Fina que estava secando por motivo das barragens feitas pelos proprietários de terrenos localizados ao longo do leito do igarapé.

“A situação da população que utilizava as águas do Igarapé Canela Fina estava precária porque o igarapé estava secando. Fomos saber as razões e nos deparamos com um grave problema causado pelos proprietários dos terrenos que fizeram várias barragens para reter as águas. Com isso o igarapé foi minguando e suas águas desaparecendo. Graças ao Ministério Público, que deu total apoio a situação, conseguimos junto com os órgãos ambientais reverter à situação. Com a retirada das barragens e com o tempo as águas voltaram a correr normal no leito do igarapé”, lembrou.

No caso de sucesso do Igarapé Canela Fina, depois de constatada a irregularidade pelos técnicos da Secretaria de Meio Ambiente (Sema) quatro proprietários foram notificados e assinaram um Termo de Ajuste de Conduta com o Ministério Público Estadual para desfazer as barragens que estavam prejudicando o transcurso das águas. “Conseguimos com o apoio dos órgãos ambientais e do MPE recuperar aquele igarapé que atualmente abastece, como antigamente, aquela população, inclusive servindo para o lazer”, disse.

Antônio de Paula afirmou que os igarapés Boulevard Thaumaturgo, São Salvador e Tiro ao Alvo, localizados na área urbana do município, atualmente servem de aparador de lixo da comunidade. Ele convocou a população para iniciar um trabalho de cuidar mais do meio ambiente e não jogar lixo nos leitos de igarapés que ficam contaminados, além de em muitas ocasiões causar o entupimento de bueiros e prejudicar a população que tem suas casas invadidas pelas águas nos bairros.

“Com certeza a comunidade é a maior responsável e a chave para a solução do problema. No Rio Môa, na volta da Aurora tem poucos moradores, mas a população da cidade que vai de carro no verão para a Serra do Môa por Mâncio Lima, porque diminuiu muito a distância, polui muito as águas do rio quando jogam sacolas de lixo. Então, a parceria da comunidade, tanto da cidade como de ribeirinhos e as autoridades pode amenizar muito o problema ambiental causado pelo lixo”, disse.

Na ocasião Antônio de Paula destacou ainda a importância do trabalho da SEMA, que garantiu apoio há vários projetos de conscientização realizados pela AMAJ nas comunidades ribeirinhas do Alto Juruá com referência ao problema da poluição dos rios e igarapés,  que resultou num melhoramento da situação, principalmente pelas palestras realizadas nas escolas das diversas comunidades que surtiram grande efeito e sensibilizou a população.

“Depois disso não voltei mais lá, mas ainda quero voltar lá, mas isso depende de um projeto para bancar o combustível, rancho e as despesas. Tem que ter alguém que patrocine. A Sema é que tem garantido esses projetos, mas adoeci em fevereiro, ainda não fiquei bem bom, mas quero voltar lá. Agora (no mês de Junho) vai ter uma reunião do Parque Nacional da Serra do Divisor, onde sou conselheiro. Depois disso quero ir em Rio Branco para organizar mais um trabalho”, finalizou o ambientalista que não teve tempo para realizar mais um projeto pela sua morte na semana passada.

Um comentário

  1. RAIMUNDO CARLOS DE LIMA

    Caro Diretor do Jornal Voz do Norte, parabéns pela ótima e importante matéria! A oportunidade da entrevista com o Sr. Antonio de Paula foi ímpar. Se não tivesse ocorrido em tempo, teríamos perdido esse valioso presente, que passa a integrar a história escrita do Alto Juruá.

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