Cruzeiro do Sul, Acre, 16 de julho de 2026 16:43

O que Trump não pode taxar. Tarifas demonstram poder; exceções revelam dependência

Quando Donald Trump anunciar o conteúdo do novo tarifaço contra produtos brasileiros, governos, empresas e mercados correrão para a mesma lista: a dos setores atingidos.

Farão contas, estimarão prejuízos, procurarão culpados e discutirão respostas. Talvez fosse melhor começar pela lista contrária. A informação verdadeiramente estratégica estará nos produtos que os Estados Unidos decidirem não taxar.

O chefe do USTR (Escritório do Representate Comercial dos Estados Unidos), Jamieson Greer, comunicou ao governo brasileiro que considera encerrada a negociação e que já apresentou ao presidente americano a sua recomendação final.

Ao mesmo tempo, sinalizou que a lista de exceções poderá ser maior do que inicialmente previsto. A contradição é apenas aparente: a decisão política parece tomada; os limites econômicos dessa decisão ainda estão sendo calculados.

Tarifas demonstram poder. Exceções revelam dependência.

Sempre que Washington poupar uma mercadoria brasileira, estará admitindo que o custo de taxá-la não poderá ser suportado não apenas pelo exportador estrangeiro, mas também por uma fábrica, uma empresa ou um consumidor americano.

Não se tratará necessariamente de benevolência diplomática. Muito menos de uma súbita conversão da Casa Branca ao livre comércio. Será, antes, o reconhecimento de que algumas punições regressam ao país que as aplica.

Foi precisamente esse o argumento que parece ter produzido maior efeito nas conversas com o USTR. Parte relevante do comércio bilateral é feita por subsidiárias de empresas americanas que produzem peças e componentes no Brasil e os enviam para as próprias matrizes nos Estados Unidos. Nesses casos, taxar o produto brasileiro significa encarecer a produção americana.

É aqui que Brasília pode alavancar. Abandonar a contabilidade defensiva e pensar com estratégia.

O governo brasileiro olhará naturalmente para as exceções como alívio. Os setores poupados celebrarão. As empresas afetadas pedirão novas negociações. Mas a lista poderá oferecer algo mais importante: um mapa dos lugares em que o Brasil é difícil, caro, inconveniente ou impossível de substituir.

Nem toda exceção provará uma dependência estrutural. Algumas resultarão do trabalho de grupos empresariais, do medo da inflação ou da necessidade de proteger cadeias industriais específicas.

Ainda assim, todas terão algo a ensinar. Mostrarão onde o custo doméstico da punição se tornou maior do que a vantagem política esperada por Washington.

Essa informação deveria orientar a política industrial, a atração de investimentos e a diplomacia econômica brasileira. Um país conhece melhor o seu poder quando descobre não apenas aquilo que vende, mas aquilo que os outros não conseguem deixar de comprar.

Durante muito tempo, o Brasil tratou as exportações como números de uma balança comercial: toneladas, dólares, superávits e participação de mercado.

A nova geopolítica exige uma leitura diferente.

Uma matéria-prima sem substituto imediato, um componente incorporado à produção estrangeira ou uma empresa americana dependente de uma fábrica brasileira podem valer mais numa negociação do que muitas declarações oficiais.

O comércio internacional deixou de ser apenas uma troca entre países. Tornou-se uma rede de dependências cruzadas, na qual cada governo tenta demonstrar força sem interromper as cadeias que sustentam a própria economia.

Trump pretende usar as tarifas para mostrar até onde pode castigar o Brasil. As exceções mostrarão até onde não pode ir. É aqui que está a vantagem brasileira.

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