Cruzeiro do Sul, Acre, 19 de março de 2026 15:17

Artigo – Maturidade é a arte de filtrar a vida – Francisco Araújo (Chico Araújo)

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Há um ponto da vida em que crescer deixa de ser apenas acumular anos e passa a significar depurar sentidos. A maturidade não endurece o olhar; ela o refina. Como ensinou Aristóteles, a virtude reside no meio-termo — e alcançá-lo exige experiência, escuta e discernimento. Não se trata de falar mais alto, mas de compreender melhor; não de reagir mais rápido, mas de interpretar com maior profundidade.

Com o tempo, aprende-se que ouvir é mais exigente do que falar. Martin Buber já indicava que o verdadeiro encontro humano nasce da relação “Eu-Tu”, em que o outro deixa de ser objeto e se torna presença a ser acolhida. Ouvir, nesse sentido, é reconhecer o outro como legítimo — e isso demanda maturidade emocional e intelectual. Na mesma direção, Carl Rogers sustentava que a escuta genuína transforma, pois suspende julgamentos e permite que o significado emerja.

Sob a ótica sociológica, amadurecer é também tornar-se seletivo. Não por arrogância, mas por consciência de limites. Zygmunt Bauman descreveu a modernidade líquida como um tempo de vínculos frágeis e relações descartáveis. Nesse cenário, a maturidade atua como resistência: filtra o ruído, recusa o superficial e preserva o essencial. Ser seletivo, portanto, não é excluir por capricho, mas proteger por sabedoria.

Psicologicamente, esse processo implica reconhecer padrões tóxicos — aquilo que o senso comum chamaria de “ea daninha” das relações: conflitos estéreis, vaidades infladas, ressentimentos cultivados. Sigmund Freud já apontava que grande parte do sofrimento humano nasce de repetições inconscientes. A maturidade rompe esse ciclo: identifica o que não edifica e, com firmeza serena, se afasta. Não há espaço para rabugices quando se compreende que o tempo é finito e o desgaste emocional, evitável.

Sob o olhar antropológico, amadurecer é aprender a ler símbolos — perceber o que se esconde além da superfície dos gestos e das palavras. Clifford Geertz afirmava que o ser humano está “suspenso em teias de significados que ele mesmo teceu”. A maturidade consiste em interpretar essas teias: compreender o não dito, contextualizar o dito e, sobretudo, não reagir de forma simplista ao que é complexo.

A tradição bíblica, especialmente na Bíblia Edição Pastoral, ecoa essa sabedoria de forma direta e contundente: “O homem prudente controla o seu saber, mas o coração dos insensatos proclama a loucura” (Pr 12,23). E ainda: “Quem responde antes de ouvir mostra insensatez e passa vergonha” (Pr 18,13). A maturidade, portanto, é inseparável da escuta e do discernimento. Não é apenas saber muito, mas saber quando falar, quando silenciar e quando simplesmente compreender.

Assim, ao atingir certa idade — que não é apenas cronológica, mas existencial — o ser humano torna-se mais objetivo, não por frieza, mas por clareza. Aprende a escolher melhor suas batalhas, suas palavras e suas companhias. Evita o que desgasta, cultiva o que constrói. E, sobretudo, compreende que maturidade não é perder a sensibilidade, mas protegê-la do que a empobrece.

No fim, amadurecer é isso: substituir o impulso pela consciência, o ruído pelo sentido e a pressa pela compreensão. É saber que nem tudo merece resposta, mas tudo exige entendimento.

* Advogado, jornalista, autor do livro “Quando Convivi com os Ratos” (2024), Sombras do Poder (2025) e Memórias de Um Repórter (2025), todos pela Editora Social.

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