Política anti-imigração do presidente americano atinge latinos em cheio, e com fortes apelos culturais
O espetáculo do cantor porto-riquenho Bad Bunny no intervalo do Super Bowl foi a resposta de maior impacto potencial já dada à cruzada cultural que o presidente Donald Trump lidera há pelo menos uma década contra os imigrantes nos Estados Unidos.
Desde que se lançou em 2015, Trump tem feito ataques contra a honestidade e a capacidade intelectual dos latinos que migraram para os EUA. Em apenas 13 minutos de show, Bad Bunny procurou demonstrar a riqueza e a força da cultura latina e restaurar a auto-estima dos imigrantes.
A performance foi chamada de “histórica” pelo sóbrio The Wall Street Journal, mais importante veículo do establishment econômico americano: “Em um espetáculo histórico no intervalo, apresentado quase inteiramente em espanhol, a estrela porto-riquenha fez uma homenagem à sua herança e aos muitos países — do Brasil ao México — cujas pessoas ajudaram a moldar os Estados Unidos modernos”.
Durante a apresentação, Bad Bunny disse em inglês “Deus abençoe a América”, e continuou em espanhol: “Seja Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia”, citando a maioria dos países das Américas, enquanto dançarinos empunhavam as bandeiras. O cantor desafiou, em espanhol: “Ainda estamos aqui”.
No meio do show, ele olhou para a câmera e disse: “Meu nome é Benito Antonio Martínez Ocasio, e se eu estou aqui hoje no Super Bowl 60 é porque eu nunca, nunca parei de acreditar em mim mesmo, e você também deve acreditar em si mesmo, você vale mais do que pensa”.
Pareceria uma mensagem de superação ou de inspiração, mas no contexto em que pessoas não brancas, sobretudo latinas, são abordadas nas ruas dos Estados Unidos por agentes anti-imigração, e levadas para detenções sob ameaça de deportação, a frase ganha um novo significado.
Trump tem um longo histórico de exploração político-eleitoral da imigração e de ofensas contra estrangeiros, em especial latinos.
Ao lançar sua candidatura, em 16 de junho de 2015, ele discursou: “Quando o México envia seu povo, eles não estão enviando os seus melhores. Eles não estão enviando vocês. Eles estão enviando pessoas que têm muitos problemas. Eles estão trazendo drogas. Eles estão trazendo crime. São estupradores. E alguns, suponho, são boas pessoas.”
Na campanha de 2024, e ao longo do ano passado, ele defendeu a tese, sem apresentar evidências, de que a Venezuela abriu suas prisões e manicômios para propositalmente inundar os Estados Unidos de criminosos e pessoas com problemas mentais.
Durante a convenção do Partido Republicano que confirmou seu nome, em julho de 2024, ele e seu vice, J.D. Vance, divulgaram versões falsas segundo as quais imigrantes haitianos estariam roubando e matando para comer animais de estimação em Springfield, Ohio. Tanto o prefeito da cidade quanto o governador do estado, ambos republicanos, desmentiram os boatos e mesmo assim Trump e Vance continuaram insistindo na versão.
Em 22 de julho de 2019, Trump postou no então Twitter, hoje X, que quatro deputadas democratas não brancas deveriam “voltar e ajudar a consertar os lugares drasticamente depreedados e infestados de crime de onde vieram”.
Todas eram cidadãs americanas, três delas nascidas nos Estados Unidos: Alexandria Ocasio‑Cortez, filha de porto-riquenhos, nascida em Nova York; Rashida Tlaib, nascida em Detroit, de família palestina; e Ayanna Pressley, afro-descendente de Cincinnati. Apenas Ilhan Omar nasceu em Mogadíscio, Somália, e migrou ainda criança para os Estados Unidos como refugiada.
Essas são apenas algumas evidências da natureza cultural da campanha de Trump contra os imigrantes. Daí que a resposta mais eloquente esteja sendo dada também no campo cultural.
Na cerimônia de entrega do Grammy Awards, na noite de domingo, dia 1.º, com transmissão para o mundo inteiro, vários artistas aproveitaram para manifestar apoio a imigrantes e criticar as políticas de imigração do governo Trump.
Entre eles, o próprio Bad Bunny, que ao aceitar o Prêmio de Álbum de Música Urbana disse: “ICE out” (ICE, fora), referindo-se à agência anti-imigração. Ele expressou solidariedade às pessoas que tiveram que deixar seus países em busca de sonhos. Billie Eilish, ao aceitar o Prêmio de Canção do Ano, declarou que “ninguém é ilegal em terras roubadas” e enfatizou a necessidade de continuar lutando e protestando.
Olivia Dean destacou sua origem como neta de imigrantes e a importância de celebrar essas trajetórias; Kehlani, SZA e outros artistas usaram bótons com a mensagem “ICE Out”. Justin Bieber e Hailey Bieber também usavam símbolos em apoio à causa durante a cerimônia.
À medida em que a exposição da cultura latino-americana ganha corpo nesse contexto de embate cultural, é possível que as premiações do próprio cinema brasileiro acabem, até retrospectivamente, ganhando também essa conotação.
O longa O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho, conquistou os prêmios de Melhor Filme em Língua Estrangeira na cerimônia dos Prêmios da Escolha dos Críticos em 4 de janeiro, de Melhor Filme em Língua Não Inglesa e de Melhor Ator em Drama, com Wagner Moura, no Globo de Ouro, em 12 de janeiro.
O filme também ganhou prêmios por Melhor Filme em Língua Estrangeira e Melhor Ator no New York Film Critics Circle Awards.
Outro filme brasileiro de grande impacto recente nos Estados Unidos foi Ainda Estou Aqui, dirigido por Walter Salles, que ganhou o Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025, fazendo história como o primeiro filme produzido no Brasil a vencer nessa categoria no Oscar.
Pesou também nessas premiações, sobretudo de Ainda Estou Aqui, o ambiente de defesa da democracia nos Estados Unidos. Mas o tema tem ligação com o dos direitos dos imigrantes, no sentido de que preocupa o mesmo público, e por razões semelhantes.