Após mais de quatro décadas guardando grande parte dos seus versos, o jornalista Dilson Ornelas finalmente atende seu amigo e mestre Luís Antônio Pimentel: “O mundo não precisa de poetas de gaveta. Publica!”. O resultado é “Ciladas: Entre o Som e o Sentido”, uma obra visceral lançada em 2026, oferecendo mais do que lirismo, na verdade Dilson entrega um “prato fundo” de inconformismo e reflexão.
O livro pode ser encontrado em versão digital na loja da Amazon, ao se clicar neste link. E pode ser encontrado também em formato de papel na loja da UICLAS.
A Metamorfose de um “Bicho Urbano” Niterói é o berço onde Ornelas forjou sua identidade política e jornalística, em meio a “bandeiras vermelhas” e marchas de metalúrgicos em 1977. No entanto, a essência do livro foi transmutada nas águas turvas do Rio Juruá. Na Amazônia, o autor despiu-se do “carioca apressado” para encontrar redenção no silêncio do remanso, aprendendo que a poesia da memória é o verdadeiro tesouro, muito além da lógica do “tempo é dinheiro”.
A Linguagem como Arma e Alimento O título “Ciladas” não é acidental. Para o jornalista e poeta, as sílabas são “tijolos na construção da linguagem que liberta e escraviza”. Ele explora o abismo entre o som e o sentido, defendendo que tanto a verdade quanto a mentira habitam as entrelinhas e os silêncios. Sua poesia rejeita o “penteado e cheiroso”; é o “básico quente” — como o arroz e feijão de uma marmita — servido para quem tem fome de humanidade.
A obra não dá descanso à injustiça. Em poemas como “Lolitas”, o autor expõe a ferida da vulnerabilidade infantil diante da predação econômica. Em “Parônimos de Classe”, denuncia o descaso estatal que exclui desde o berço quem nunca teve assento em “carteiras polidas”. Já em “Pindorama”, o sal do mar é ressignificado como a lágrima indígena que salta de cinco séculos de resistência. Aqui, o poema é uma resposta ao pensamento do poeta português Fernando Pessoa, para quem as lágrimas das mulheres do seu país salgavam o Atlântico pela partida dos seus filhos rumo ao Brasil.
O leitor encontrará o hálito real do Mapinguari nas sombras da floresta e assistirá ao julgamento de “O Passarinheiro”, um alerta poético contra os predadores da natureza, sentenciado a habitar a própria gaiola que construiu.
Influenciado pela filosofia de Nietzsche e pelas lições de João Belo — o “Super-Homem da barca de Niterói” que o ensinou a beber palavras como aguardente — Dilson Ornelas entrega uma obra de “vida teimosa”.
Dilson Ornelas nos convida para atravessar em segurança a ponte sobre o vão das ciladas da linguagem. Mas, muita atenção ao aviso do autor: “Faço versos pra quem tem fome. Mas só come quem aguenta”.