O Vale do Juruá prepara-se para o lançamento de uma obra que transcende as fronteiras do Direito e mergulha nas raízes espirituais do Acre. No dia 07 de março de 2026, às 19h, o Teatro dos Nauas, em Cruzeiro do Sul, será palco da apresentação do livro: “Aldeia Isã Vakevu, do povo originário Nukini: um Sítio Natural Sagrado no Coração do Juruá”. A obra é fruto da pesquisa da Dra. Renata Duarte de Oliveira Freitas, professora de Direito da Universidade Federal do Acre (UFAC), no Campus Floresta.

A VOZ DA ANCESTRALIDADE E O LEGADO DE YNESTO KUMÃ
Muito mais que um registro acadêmico, o livro é um tributo à memória de Arlete Muniz (in memoriam), cujo nome na língua é Ynesto Kumã. Matriarca, pajé e parteira, ela foi a guardiã que resistiu à violência cultural — o derramamento de sangue e o silenciamento impostos pelo nawa (homem branco) — para transmitir o conhecimento milenar de seu povo.
Figura: Arlete Muniz (in memoriam), nome na língua: Ynesto Kumã.

Foto: Pistyani Nukini/Arquivo Pessoal
Este legado espiritual de pajé foi transmitido por ela ao seu neto, Txane Pistyani Nukini (Leonardo Muniz), garantindo que a sabedoria passasse de geração para geração. Hoje, essa herança de resistência floresce no Kupixawa Huhu Inesto, local sagrado onde a governança espiritual é exercida através das medicinas da floresta, como o Uni (ayahuasca) e o Rumã (rapé). Como descreve a canção-poesia de Pistyani, o povo que “habita próximo à serra do Moa” e é “filho de onça pintada” encontra nesta obra uma forma de materializar sua cosmologia para o mundo.
Figura: Kupixawa Huhu Inesto

Foto: Pistyani Nukini/Arquivo Pessoal
OS PILARES DE UMA NOVA JUSTIÇA: A CIÊNCIA ANCESTRAL DO POVO DA ONÇA
A obra da Dra. Renata Duarte não apenas relata a vivência Nukini, mas estabelece uma base teórica robusta que desafia o pragmatismo da justiça tradicional através de três eixos fundamentais:
- Direito Achado na Aldeia:Inspirado na matriz epistemológica do “Direito Achado na Rua”, este conceito defende que a lei não deve ser apenas uma imposição vertical do Estado, mas sim um reflexo vivo que emana das práticas sociais, dos costumes e da sacralidade do território. Para o povo Nukini, o Direito nasce da relação intrínseca com a “Mãe Natureza”, onde o território é o palco histórico de uma justiça que já existia muito antes das leis escritas.
- Sítios Naturais Sagrados (SNS):A obra redefine esses espaços — como a Aldeia Isã Vakevu — não apenas como pontos geográficos, mas como o cerne da cosmovisão indígena. Funcionam como pontes ancestrais para a comunhão com o Grande Espírito, espaços de cura para o equilíbrio físico e espiritual, e centros de identidade essenciais para a perpetuação da memória e cultura entre as gerações.
- Direitos Bioculturais:Esta categoria jurídica inovadora reconhece que a diversidade biológica e a cultural são faces da mesma moeda. O livro argumenta que a conservação da biodiversidade na Amazônia só é possível se os modos de vida, conhecimentos e sistemas de crenças dos povos tradicionais forem protegidos, já que eles coevoluíram em perfeita simbiose com o ecossistema.
Figura: Pistyani Nukini e Renata Duarte de O. Freitas. Pré-Lançamento do Livro na Aldeia Isã Vakevu,
no dia 27 de dezembro de 2025.

Foto: Veronisa Viana
CONFLITO TERRITORIAL E JUSTIÇA AMBIENTAL
Um dos pontos centrais da obra é a análise da sobreposição de uma parte do território Nukini com o Parque Nacional da Serra do Divisor (PNSD). A pesquisa evidencia que a proteção da natureza sagrada é a proteção da própria existência indígena, defendendo que a gestão dessas áreas garanta a participação dos guardiões milenares da floresta.
“Para nós, a Terra toda é sagrada, mas há espaços que facilitam nossa comunhão com o grande espírito”, afirma Txane Pistyani Nukini (Leonardo Muniz) no posfácio da obra, celebrando o registro desses conhecimentos como um presente para a humanidade.
INFORMAÇÕES
- Evento: Lançamento do livro “Aldeia Isã Vakevu, do povo originário Nukini”.
- Data e Hora: 07 de março de 2026, às 19h.
- Local: Teatro dos Nauas, Cruzeiro do Sul – AC.
- Editora: Lumen Juris
- Link para aquisição: https://lumenjuris.com.br/Categoria/aldeia-isa-vakevu-do-povo-originario-nukini-2026-4926/p
APOIO E PARCERIAS
- Universidade Federal do Acre (UFAC) – Campus Floresta
- Núcleo de Estudo em Direito Ambiental e Biodireito (NEDAB);
- Observatório de Direitos Humanos (ODH/UFAC);
- Prefeitura Municipal de Cruzeiro do Sul: Representada pelas Secretarias de Cultura e de Desenvolvimento Econômico e Turismo, apoiando a realização do evento no Teatro dos Nauas.
- Prefeitura Municipal de Mâncio Lima;
- SOS Amazônia: Organização que atua na conservação da biodiversidade e apoio aos povos da floresta.
- Paulo Henrique Costa: Responsável pelo registro fotográfico no lançamento do livro.
- Aworan Tattoo & Piercing, Rua 068 Burgers e Cheiro de Flor: Empresas locais que contribuem com o fomento à cultura e ao lançamento regional do livro.
