Cruzeiro do Sul, Acre, 6 de março de 2026 12:09

Onde o esturro da onça ecoa direito: a ciência ancestral dos sítios naturais sagrados no coração do Juruá

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O Vale do Juruá prepara-se para o lançamento de uma obra que transcende as fronteiras do Direito e mergulha nas raízes espirituais do Acre. No dia 07 de março de 2026, às 19h, o Teatro dos Nauas, em Cruzeiro do Sul, será palco da apresentação do livro: “Aldeia Isã Vakevu, do povo originário Nukini: um Sítio Natural Sagrado no Coração do Juruá”. A obra é fruto da pesquisa da Dra. Renata Duarte de Oliveira Freitas, professora de Direito da Universidade Federal do Acre (UFAC), no Campus Floresta.

A VOZ DA ANCESTRALIDADE E O LEGADO DE YNESTO KUMÃ

Muito mais que um registro acadêmico, o livro é um tributo à memória de Arlete Muniz (in memoriam), cujo nome na língua é Ynesto Kumã. Matriarca, pajé e parteira, ela foi a guardiã que resistiu à violência cultural — o derramamento de sangue e o silenciamento impostos pelo nawa (homem branco) — para transmitir o conhecimento milenar de seu povo.

                                     Figura: Arlete Muniz (in memoriam), nome na língua: Ynesto Kumã.

 

                                   Foto: Pistyani Nukini/Arquivo Pessoal

Este legado espiritual de pajé foi transmitido por ela ao seu neto, Txane Pistyani Nukini (Leonardo Muniz), garantindo que a sabedoria passasse de geração para geração. Hoje, essa herança de resistência floresce no Kupixawa Huhu Inesto, local sagrado onde a governança espiritual é exercida através das medicinas da floresta, como o Uni (ayahuasca) e o Rumã (rapé). Como descreve a canção-poesia de Pistyani, o povo que “habita próximo à serra do Moa” e é “filho de onça pintada” encontra nesta obra uma forma de materializar sua cosmologia para o mundo.

                             Figura: Kupixawa Huhu Inesto

                             Foto: Pistyani Nukini/Arquivo Pessoal

OS PILARES DE UMA NOVA JUSTIÇA: A CIÊNCIA ANCESTRAL DO POVO DA ONÇA

A obra da Dra. Renata Duarte não apenas relata a vivência Nukini, mas estabelece uma base teórica robusta que desafia o pragmatismo da justiça tradicional através de três eixos fundamentais:

  • Direito Achado na Aldeia:Inspirado na matriz epistemológica do “Direito Achado na Rua”, este conceito defende que a lei não deve ser apenas uma imposição vertical do Estado, mas sim um reflexo vivo que emana das práticas sociais, dos costumes e da sacralidade do território. Para o povo Nukini, o Direito nasce da relação intrínseca com a “Mãe Natureza”, onde o território é o palco histórico de uma justiça que já existia muito antes das leis escritas.
  • Sítios Naturais Sagrados (SNS):A obra redefine esses espaços — como a Aldeia Isã Vakevu — não apenas como pontos geográficos, mas como o cerne da cosmovisão indígena. Funcionam como pontes ancestrais para a comunhão com o Grande Espírito, espaços de cura para o equilíbrio físico e espiritual, e centros de identidade essenciais para a perpetuação da memória e cultura entre as gerações.
  • Direitos Bioculturais:Esta categoria jurídica inovadora reconhece que a diversidade biológica e a cultural são faces da mesma moeda. O livro argumenta que a conservação da biodiversidade na Amazônia só é possível se os modos de vida, conhecimentos e sistemas de crenças dos povos tradicionais forem protegidos, já que eles coevoluíram em perfeita simbiose com o ecossistema.

 

                                    Figura: Pistyani Nukini e Renata Duarte de O. Freitas. Pré-Lançamento do Livro na Aldeia Isã Vakevu,

                                    no dia 27 de dezembro de 2025.

                                   Foto: Veronisa Viana

CONFLITO TERRITORIAL E JUSTIÇA AMBIENTAL

Um dos pontos centrais da obra é a análise da sobreposição de uma parte do território Nukini com o Parque Nacional da Serra do Divisor (PNSD). A pesquisa evidencia que a proteção da natureza sagrada é a proteção da própria existência indígena, defendendo que a gestão dessas áreas garanta a participação dos guardiões milenares da floresta.

“Para nós, a Terra toda é sagrada, mas há espaços que facilitam nossa comunhão com o grande espírito”, afirma Txane Pistyani Nukini (Leonardo Muniz) no posfácio da obra, celebrando o registro desses conhecimentos como um presente para a humanidade.

 

 

 

INFORMAÇÕES

 

APOIO E PARCERIAS

  • Universidade Federal do Acre (UFAC) – Campus Floresta
  • Núcleo de Estudo em Direito Ambiental e Biodireito (NEDAB);
  • Observatório de Direitos Humanos (ODH/UFAC);
  • Prefeitura Municipal de Cruzeiro do Sul: Representada pelas Secretarias de Cultura e de Desenvolvimento Econômico e Turismo, apoiando a realização do evento no Teatro dos Nauas.
  • Prefeitura Municipal de Mâncio Lima;
  • SOS Amazônia: Organização que atua na conservação da biodiversidade e apoio aos povos da floresta.
  • Paulo Henrique Costa: Responsável pelo registro fotográfico no lançamento do livro.
  • Aworan Tattoo & Piercing, Rua 068 Burgers e Cheiro de Flor: Empresas locais que contribuem com o fomento à cultura e ao lançamento regional do livro.