Cruzeiro do Sul, Acre, 28 de fevereiro de 2026 22:01

Suframa: quase seis décadas acelerando a indústria e a mobilidade na Amazônia

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Pilar socioeconômico da Amazônia representa cerca de 80% da receita do Estado

Aos 59 anos, a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) consolida um legado que moldou o crescimento urbano, redesenhou a malha viária e transformou Manaus em metrópole industrial. Criada pelo Decreto-Lei nº 288, de 28 de fevereiro de 1967, a política surgiu para enfrentar um cenário de estagnação econômica, isolamento geográfico e baixa renda após o declínio do ciclo da borracha.

Na década de 1970, quando os primeiros efeitos da Zona Franca de Manaus (ZFM) começaram a aparecer, a diferença de renda entre Amazonas e Sudeste era abissal. Em valores atualizados, a renda per capita de São Paulo era de R$ 17,4 mil, sete vezes maior que a do Amazonas, estimada em R$ 2,4 mil. Quatro décadas depois, segundo estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV), essa distância caiu para 1,8 vez: em 2010, São Paulo registrava R$ 30 mil, enquanto o Amazonas alcançava R$ 17 mil, próximo da média nacional, de R$ 19 mil.

O avanço econômico se materializou principalmente no Polo Industrial de Manaus (PIM), instalado majoritariamente no Distrito Industrial, nas zonas Leste e Sul. Atualmente, 553 indústrias operam no modelo, com média mensal de 131 mil empregos diretos em 2025 – alta de 5,92% em relação a 2024. O faturamento atingiu R$ 227,67 bilhões, crescimento de 11,02%, respondendo por cerca de 80% da receita do Amazonas.

Para a economista Denise Kassama, a dependência do Estado em relação ao modelo não é novidade. “Desde que eu era estudante de economia, há mais de 35 anos, se falava da dependência da Zona Franca. Sempre se discutiam alternativas, mas nunca se chegou a uma que substituísse de fato. Hoje entendemos que o polo é praticamente perene, não vai acabar”, afirmou.

Segundo ela, os números recentes indicam crescimento consistente. “Se a gente observa indicadores como produtividade, vemos que estão produzindo mais e contratando mais mão de obra. O modelo teve um crescimento bem sustentável ao longo de 2025, que provavelmente vai se sustentar em 2026”, projetou. A economista destacou ainda o impacto do calendário esportivo. “2026 é ano de Copa, e isso costuma impulsionar as vendas de televisores. Deve ser um ano muito bom para o Polo Industrial de Manaus”.

Denise reforçou que o desempenho industrial reflete a própria economia do país. “O polo produz bens finais. Se está vendendo mais TV, motocicleta, ar-condicionado, é porque o brasileiro não está vivendo apenas para pagar o básico, ele tem margem para consumir”, disse.

Embora a diversificação da matriz econômica seja debatida há décadas, a especialista avalia que o caminho atual é complementar. “Hoje não se fala mais em substituir o polo, mas em reduzir a dependência com outros modelos, como turismo e bioeconomia, que agregam valor à região”, finalizou.

Cidade que cresceu com as fábricas

Suframa: 59 anos do modelo econômico que uniu mobilidade e desenvolvimento nas indústrias de Manaus
Foto: Divulgação

O crescimento industrial atraiu migrantes, expandiu bairros e pressionou a infraestrutura urbana. De acordo com o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Manaus soma 2.063.689 habitantes, sendo a mais populosa da região Norte e a sétima do país. Curiosamente, área zoneada que abriga o parque industrial está entre os menos populosos, segundo dados do Instituto Municipal de Planejamento Urbano (Implurb), o que evidencia a necessidade de deslocamentos diários entre áreas residenciais e o Distrito Industrial.

Esse fluxo exigiu investimentos em mobilidade. O Rapidão Rodoanel Metropolitano, considerado o maior empreendimento viário recente da capital, passou a facilitar o escoamento da produção do Distrito Industrial 2, retirando veículos pesados do Centro e encurtando distâncias entre zonas. Com investimento de R$ 18,4 milhões, a obra também beneficia produtores de municípios como Rio Preto da Eva, Itacoatiara, Silves e Itapiranga, ao melhorar o acesso ao Porto de Manaus, à AM-010, à BR-174 e ao Aeroporto Internacional Eduardo Gomes.

Para o superintendente da Suframa, Bosco Saraiva, a integração entre indústria e infraestrutura é um dos principais legados do modelo. “Ao longo desses 59 anos, a Suframa não apenas impulsionou a economia, mas ajudou a transformar a infraestrutura urbana de Manaus. Um dos grandes legados é a integração entre desenvolvimento industrial e mobilidade urbana”, destacou.

Ele ressaltou que obras viárias fortalecem o ambiente produtivo. “O Rapidão Rodoanel reduz tempo de deslocamento, melhora a logística e diminui custos. Quando há investimentos em infraestrutura, todo o ambiente produtivo se fortalece e o Amazonas se torna mais atrativo para novos investimentos.”

Logística desafiada pela seca

Suframa: 59 anos do modelo econômico que uniu mobilidade e desenvolvimento nas indústrias de Manaus
Foto: Divulgação

A dependência da logística fluvial, vital para o PIM, ficou evidente nas estiagens severas dos últimos anos. Em 2023, 62 municípios decretaram emergência por causa da seca, afetando cerca de 628 mil pessoas e pressionando o abastecimento industrial. Como resposta, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) executa dragagens previstas no Plano Anual de Dragagem de Manutenção Aquaviária (PADMA), com previsão de R$ 400 milhões em cinco anos. Até o início de 2025, 1,9 milhão de metros cúbicos de sedimentos foram retirados para garantir a navegabilidade.

Em 2024, a instalação de um píer flutuante em Itacoatiara pelo Grupo Chibatão evitou a interrupção do fluxo de cargas, contribuindo para que o PIM superasse R$ 200 bilhões em faturamento no período.

Com incentivos fiscais prorrogados até 2073, o polo tem forte presença nos setores de Bens de Informática (21,17%), Duas Rodas (19,69%) e Eletroeletrônico (16,86%), e mantém desempenho robusto. Em 2025, a produção ultrapassou 2,1 milhões de motocicletas, alta de 16,58%, além de crescimento na fabricação de relógios, condicionadores de ar e monitores.

Suframa: 59 anos do modelo econômico que uniu mobilidade e desenvolvimento nas indústrias de Manaus
Foto: Divulgação/Honda

Ao comemorar 59 anos, a Suframa reafirma seu papel como eixo estruturante da economia amazonense. “São quase seis décadas de um modelo que gera empregos, protege a floresta e transforma vidas. A Zona Franca é patrimônio do povo amazonense”, declarou Bosco Saraiva. “Temos o compromisso de fortalecer o modelo para gerar mais oportunidades e garantir um futuro melhor para as próximas gerações”, completou.